segunda-feira, 4 de março de 2013

De Volta Para o Futuro



Naquela manhã num bairro da zona sul de São Paulo, Henrique tivera mais uma discussão com seus tios; seus tutores legais desde o falecimento de sua mãe há seis anos. De cabeça quente, transtornado, e num impulso, juntou suas coisas e partiu para nunca mais. Estava farto das regras excessivas e a vibração antiquada que pairava em seu lar.
 As onze e cinquenta daquela turbulenta segunda-feira em Osasco, na casa de um de seus amigos de infância, o garoto fora sido bem recebido. Otávio, três anos mais velho que Henrique, já morava sozinho desde o início de sua matrícula na universidade; jovem de classe-média da zona sul de São Paulo, se mantinha com um auxílio financeiro de seus pais e com a venda de alguns entorpecentes entre colegas e conhecidos da faculdade. Juntos, os garotos fizeram planos, tramaram contra tudo e todos e planejaram o maior dos impérios em sessões de baseados e goles de Vodka. Não havia o porquê voltar, ou por quem. Henrique finalmente se sentia livre e dono de Sodoma.
 Quase todos os dias tinham a companhia de belas garotas, muito álcool e drogas em suas festas particulares onde a luxúria e avareza eram como uma mesa farta numa ceia na noite de natal. Não tinha limites, tinha o controle total sobre tudo e finalmente, era dono de sua vida. Mas não por muito tempo.
 Com o tempo Otávio parou de receber as regalias financeiras das mãos de seus tutores, o curso na universidade já estava concluído, e tivera que trabalhar em uma das microempresas do pai. Henrique, que já não tinha quase que constantemente oque comer, procurava emprego. Seu orgulho era maior que sua força de vontade, os empregos como estoquista e empacotador não lhe brilhavam aos olhos, e a vaga de RH em uma multinacional já fora sido preenchida por jovens cursando o ensino superior, o que para Henrique ainda estava muito longe desde que abandonou os estudos aos quinze anos.
 Agora mais que nunca, sentia o verdadeiro peso da responsabilidade, sentia suas costas doloridas a cada laje que subia. Fora pintor, ajudante de pedreiro, caixa em um supermercado, manobrista em um restaurante e estoquista numa loja de calçados num shopping da zona sul. Fora sua deixa, não conseguira ficar em nenhum de seus empregos, não sabia aceitar ordem de seus superiores. E finalmente, como um passe de mágica, Henrique jogou a toalha! No ultimo emprego na loja de sapatos, o jovem foi visto por Barbara, sua ex-namorada. A garota de seus sonhos, a sua musa inspiradora e sua fada que visitara-o todas as noites em pensamentos. Estava ajoelhado no chão, enfiando com muita dificuldade os calçados nos pés de uma cliente exorbitantemente gorda, da qual não conseguia se decidir em uma hora e meia se queria a sapatilha de camurça preta, ou o salto de couro vermelho; a linda jovem de cabelos castanhos encaracolados o mediu dos pés a cabeça, e com um olhar de desprezo soltou um bufão e se virou. Aquilo fora sido a gota d’água.
 Henrique pediu demissão, pegou um trem sentido a casa de seus tios, e foi-se antes mesmo de Otávio voltar pra casa. Em cada casa, em cada pixo que observava da janela do vagão, via seu passado, sentia enfim uma nostalgia boa de como todo aquele conforto era bom, de como eram necessárias as regras impostas em seu lar para que, finalmente, pudesse florescer como um adulto responsável. Não sabia oque dizer quando chegasse, mas sentia saudades de todos. Tio Laguna, Tia Cotinha, e sua avó Natália. Queria finalmente mudar sua vida de uma vez por todas e provar a si mesmo que poderia ser grande, dono do próprio nariz.
 Atualmente Henrique é ilustrador, roteirista e fundador de um projeto de inclusão literária para crianças de comunidades carentes de São Paulo. Pai de dois filhos, trinta e seis anos, é casado a seis e se lembra com carinho de todo o trajeto que fez para ancorar onde está. Mas não sente remorso algum de sua estadia de oito meses fora de casa, no passado, quando tinha dezesseis. Talvez, se não tivesse passado por aquelas e outras dificuldades não citadas, não teria sido um adulto tão forte e bem-sucedido.

por Allef Candido e Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta
04.03.2013

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