domingo, 17 de março de 2013

O garoto que brincou com fogo




 O garoto estava desesperado, não sabia mais o que fazer. Optou pelo meio mais complicado de resolver seu problema, o homicídio. Logo após o colégio, pesquisou na internet lâminas, armas e bombas caseiras, que pudessem satisfazer seu obscuro desejo e fabricadas em pouquíssimo tempo. Recebeu conselhos malignos em fóruns, indicações de produtos químicos em redes sociais, observações duvidosas sobre o motivo para o qual seriam usadas as bombas e por fim, optou pela Lamp Fire; uma bomba caseira feita dentro de uma lâmpada com produtos encontrados facilmente em sua cozinha, garagem ou sótão.
 Antes da chegada de seu padrasto, removeu a Lâmpada da sala e levou-a ao fogão por alguns segundos até derreter a cola do suporte. Após, removeu seu suporte metálico, encheu o vidro da lâmpada com querosene e álcool e colou novamente o bocal com supercola. Enquanto aguardava a secagem do suporte metálico da lâmpada-bomba, se preparou limpando as digitais da maçaneta, dos utensílios usados na cozinha e de qualquer objeto que tenha tocado. Ligou para um de seus amigos do curso de elétrica, avisou-o sobre o plano e forjaram o álibi; quando as autoridades o procurassem, diria que foi a casa de um amigo após o colégio, e obviamente seu amigo confirmaria.
 Agora que estava tudo pronto e os vizinhos não o tinham visto chegar, poderia colocar a lâmpada de volta no bocal e correr para a casa de seu colega de curso para aguardar que as autoridades o informasse do futuro incidente. Vestiu um par de luvas cirúrgicas, pegou uma escada e se certificou de subi-la descalço, ainda mais que seus sapatos haviam ficado do lado de fora da casa estrategicamente para que não fossem identificadas suas pegadas no carpete. Colocou a Lâmpada de volta no bocal do lustre que imediatamente explodiu em seus olhos. O garoto caiu ensanguentado no carpete com parte do corpo em chamas. Rolou de um lado para o outro tentando apagar o fogo e logo após desmaiou. Tivera sido um erro de cálculo gravíssimo, algo muito simples e fatal; o garoto tivera esquecido o interruptor da sala ligado.
 De uma forma bem irônica, o garoto conseguiu se livrar de seu padrasto alcoólatra agressor. Após internado em observação por três meses no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, foi transferido para uma clínica de reabilitação para dependentes químicos, que até hoje é paga pelo padrasto. O jovem, atualmente, perdeu todo o brilho nos olhos que tinha, o rosto jovial e curioso, e teve noventa por cento da face queimada e trinta do resto do corpo no pequeno incêndio. Perdeu amigos, seu conforto, sua sanidade, mas finalmente teve oque sempre quis, a sua liberdade.


por Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta

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