sábado, 16 de agosto de 2014

Biscate de laje

Aconteceu no auge dos meus quinze anos. Havia ganhado de presente da família uma viagem sozinha pra Salvador. Diferente de minhas amigas do colégio, eu não fiquei hospedada em hotel fazenda, pousada ou pensão. Pelo meu pai ser muito conservador e até a última hora estar contra aquela viagem, me mandou pra casa de uma tia avó que só tinha me visto no nascimento.
Arrumei minhas roupas mais folgadas pro calor, comprei alguns biquinis e levei meu notebook. Não poderia ficar longe de minhas amigas e precisava deixar meu blog sempre atualizado.
No dia da tão esperada viagem, meus pais me levaram até o aeroporto de Guarulhos e se despediram sem mais delongas. Breves abraços e alguns sermões do meu pai sobre prestar atenção com quem me relaciono e respeitar o espaço na casa dos meus parentes distantes. Foi ótimo meu primeiro vôo, e estava muito bem acompanhada de um bestseller mundial. Algo com uma adolescente incompreendida e um vampiro assexuado. Degustei de alguns salgadinhos no avião e tirei um cochilo. Quando cheguei em Salvador e desembarquei no aeroporto, lá estava um funcionário do comércio da minha tia Luiza. Era um homem másculo, trajando uma camisa havaiana aberta até a metade, com fartos pelos no peito em forma de coração, um jeans surrado rasgado em um dos joelhos e algumas manchas de tinta branca. Provavelmente a mesma calça que usara pra pintar a parede de casa. Chinelos de dedo azul piscina com as unhas dos dedões do pé podres e quase caindo. Um olhar penetrante e uma expressão cansada, mas devoradora. Cabelos lisos mas com parte do couro cabeludo calvo. Portava uma plaquinha nas mãos calejadas de bater laje com um nome. Daniella.
"Sou eu", disse a ele quase pulando em cima, ali mesmo no desembarque, tirando toda sua roupa e lhe chupando o caralho ensebado. Ele me olhou dos pés a cabeça, como um semi deus grego antes de dilacerar uma virgem, e me convidou para que o acompanhasse.
Entramos em seus carro. Um Fusca azul, provavelmente ano 67, com uma das janelas emperradas em um toca fitas. Durante todo o percurso não trocamos uma palavra. Mas me imaginava todo o tempo dando loucamente a minha buceta virgem e esopada pra aquele caralho grosso, moreno e veiúdo de quarenta e três anos.
Perguntei seu nome, pra quebrar o gelo, já que não parava um segundo de olhar os meus fartos seios que quase caíam do meu decote pelo seu espelho retrovisor. Me disse que se chamava Aristides. Quase tive orgasmos. Me imaginei gritando seu nome por sobre o estofado rasgado e com cheiro de Cheetos naquele calor de trinta e sete graus, com aquela lata velha estacionada debaixo de uma árvore á beira da praia.
Subitamente voltei á realidade quando o Ari me perguntou o que fazia em Salvador e por quê viera de tão longe, sozinha e fora de temporada. "Estou a procura de uma aventura sexual das mais sordidas, e quero dar até não aguentar mais andar" pensei. Mas simplesmente respondi, "espairecer".
Ele me deixou na casa de minha tia e prometeu me levar pra conhecer a cidade quando eu quisesse. Deixou minhas malas no quarto de hospides e se despediu com uma gíria bem velha e regional. Se virou e foi embora em seu Fusca.

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A besta fera


 Era a madrugada mais fria que pudera participar e manter-se vivo. Aliás, ainda se questionara como estava vivo num frio extremo na floresta, deitado na neve encostado em uma árvore e trajando apenas luvas, touca, uma blusa de lã sob uma jaqueta jeans, uma calça jeans e botas de passeio. Após uma de muitas brigas com sua esposa, saíra para caçar, mas havia bebido tanto gim que pegara no sono no fim da tarde. Agora, acordado no meio da madruga, sem senso de direção algum e com a visão obstruída por conta da nevasca que se aproximava, não podia ver as estrelas para seguir de volta para casa.
 Eis que, sem ter o que fazer, decidira caminhar por conta, tentando se lembrar do caminho, que agora embaixo da neve constante, só estava visível a dois metros de sua visão. Não era fácil retornar no escuro extremo, a neve cobrindo seu tornozelo e algumas rajadas de vento lhe surpreendiam a cada curva cega na floresta, mas era necessário. Seu pés estavam formigando, quase não os sentia, e suas mãos, pareciam dois pesados blocos de gelo.
 Mais ou menos trinta minutos de caminhada, o velho Willy de olhos cansados e barba ruiva protuberante viu um par de luzes verde. Prevendo que fosse alguém para lhe salvar - ou para morrer de frio contigo -, correu ensandecido uns dez metros adiante. Como se não bastasse o frio, quando avistou a criatura, congelara de medo. Seus olhos eram verde-esmeralda cintilante, pareciam dois vaga-lumes voando lentamente em sincronia. Seu corpo era revestido de pelos negros muito grossos, compridos, e seus dentes se projetavam de sua boca, que mais parecia um focinho.
 A criatura que devia ter em média três metros de altura, estava curvada saboreando o que parecia ser um cadáver em decomposição. Willy,aterrorizado com a cena, recuperara totalmente os sentidos extirpados pelo efeito do álcool em excesso. Lentamente, com os sentidos apurados por conta da adrenalina, o velho barba ruiva dera um paço para trás, depois outro e depois outro, buscando o melhor momento para correr. Mas, quando estava quase fora do alcance de visão da besta fera, tropeçara em uma raiz encoberta pela neve, justo no instante que as copas das árvores pararam os silvos, a neve tinha cessado e a floresta estava mais tranquila. Fora sido como um estalar de dedos, mas que naquela madrugada totalmente escura e silenciosa - a não ser pelos sons abafados da mandíbula monstruosa que mastigava alguns ossos dois metros à frente -, soaram como um tiro de uma pistola.
 O velho Willy já havia se considerado morto. Tentara levantar rapidamente mas sabia que seria em vão. Quando ficara em pé, com o fôlego de fumante veterano, não dera dois passos até ser derrubado novamente, mas desta vez pela fera. Quando a besta ensandecida estava sobre o seu peito, com as garras sobre os braços e a saliva misturada em sangue pingava-lhe da cara, Willy não mais sabia para qual deus rezar. A besta fera, rosnando e grunhindo olhara-o nos olhos, penetrando suas pupilas. Se aproximara a menos de dois centímetros da face do velho barba ruiva, farejara-o no pescoço e depois nos ombros. Se parecia mais com um cachorro com raiva seu rosnado, do que qualquer outra coisa. Willy não sabia mais o que fazer, então como se não bastasse as preces rápidas com a boca seca e os olhos espantados, dissera como uma ultima tentativa: "Por favor...", e então a besta fera respondera com um tom grave, mais humano que canino, algo como: "Ainda não".
 A fera saiu correndo como um lobo floresta adentro e Willy, mais confuso que assustado ficara ali, parado, sem saber ao certo se tivera visto o que viu, se tivera ouvido o que ouviu. Logo, começou a amanhecer e o velho se preparava para o caminho de volta. Mas não teve coragem alguma de checar o cadáver que havia virado lanche. E ao longo de sua vida, quase todos o que conheciam, ouviam essa história até os últimos dias de sua vida.

                                                                         por Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sofia e sua curta vida


 Acordei já exausto. Há meses vivendo uma loucura, um corre-corre... Escola, trabalho de meio período e o maldito curso de administração, muita informação. Vivendo no modo automático. Em banho gelado para despertar...
Voltei para meu quarto e chequei minha mochila.

- Putz! Vou perder a hora, vou deixar para comer algo no caminho mesmo. O dia nem começou e eu já estou desiludido - parei por um segundo e pensei em como poderia ter um tempo a mais para min mesmo.
 Caminhando rápido para não perder o ônibus, acabei esbarrando em uma garota que vinha de fronte.

- Desculpe você está bem? Foi sem querer.

- Estou bem, relaxa!

  A garota se levantou limpando o bonito vestido florido e me olhou fixamente com um olhar curioso. Ela seguiu o rumo dela e eu continuei o meu caminho.
  Andei poucos metros até ouvir a voz da garota novamente:

- Heeeei!!

- Oi?

- Você não acha que deveríamos ter nos esbarrado hoje?

- Está falando de destino?

- Não, apenas de como você mudou nossas vidas.

  Mas que porra é essa?! Pensei. Esqueci completamente da minha obrigação, na verdade a vontade de jogar tudo para o alto falou mais alto. Comecei a caminhar aleatoriamente com a garota e fui ouvindo suas teorias malucas de como cada ação feita ou não feita pode influenciar diretamente na vida de cada pessoa em que entramos em contato.

-Você acredita em destino?

- Está dizendo que foi nosso destino ter nos trombado hoje de manhã Sofia?

- Talvez..

- Se for destino... - Eu disse. - Certamente não podemos influenciar ou mudar o futuro de alguém. E tudo que você me disse foi pura merda.

- E se você morrer agora? Vai para o céu ou para o inferno? E se sua vida realmente acabar e não existir mais nada após? E se essa vida for pura Ilusão? Qual objetivo?

- Não sei... Para uma garota de 12 anos você é bem curiosa e estranha!

Sofia não saberá as respostas, pois a vida dela acabará aqui. Doze de maio de dois mil e treze, ás quatro e trinta e sete da tarde.
por Paulo Farias / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O estranho caso do Dr. George Pudwins



por Carter; Alex.

 George era um homem triste, daqueles visualmente abatidos, com uma pinta de homem letrado, acadêmico, um pouco avoado; tinha um bom emprego em Standford, um dos professores mais antigos da universidade; sessenta e seis anos e nunca fora sido casado. Há doze anos iniciou um novo projeto em sua vida, recrutou jovens de dezoito à vinte dois anos para um grupo fechado, com ideais reclusas e de fins duvidosos. Tinha em mente criar uma irmandade, e apesar de sua idade um pouco ultrapassada, ainda sabia exercer suas funcionalidades como psiquiatra. Induziu à mais de vinte e dois jovens ao suicídio coletivo no dia quatorze de julho. E conseguiu.
 Condenado à prisão perpétua, decidiu escrever um livro, explicando e categorizando suas convicções e crenças baseadas no antigo testamento e modificadas, por nada mais nada menos que, David Lavey. Tinha concepções baseadas no ocultismo, satanismo moderno e inspiradas em alguns pontos de vista inspirados por Nietzsche, em seus dois últimos livros. Sua visão, apesar de sociopata, e psicopata, parecia ter uma certa coerência. Expressou em suas vastas palavras seu conhecimento sobre os assuntos mais obscuros já abordados pela humanidade, e dizia, como se já não fosse o bastante, ser a reencarnação do criador da bíblia satânica. Suas faculdades mentais, como fora sido constatado por antigos colegas de trabalho, não iam muito bem. Embora não tivesse antecedentes criminais, antes do acontecido no passado com seus pacientes adolescentes, foi diagnosticado como “perigoso e imprevisível” por alguns dos psiquiatras e antigos colegas de trabalho que o haviam examinado.
 Dois anos mais tarde, após o acontecido ter sido publicado em todos os tipos de mídia impressa no país inteiro, e vagamente ter sido esquecido por muitos dos cidadãos americanos, o Dr. Leonard Hopkins decidira assumir o caso. Em muitas de suas seções com anotações que nunca foram divulgadas, e se quer comentadas quaisquer de uma de suas consultas com o “doutor maluco”, como George Pudwins fora sido apelidado pela imprensa, jamais chegou a constatar cem por cento de insanidade mental de seu paciente, como foi feito anteriormente por outros profissionais da área. Muito pelo contrário. O doutor Hopkins assumia totalmente quaisquer riscos caso seu paciente fosse solto, e consequentemente a responsabilidade sobre o mesmo. Logo no início de suas consultas, chegou a enviar algumas cartas ao juiz responsável pelo “caso do suicídio coletivo”, - como fora sido conhecido pela imprensa na década. – que logo depois foram sido descartadas nas audiências seguintes.
 O mais curioso, ou até mesmo bizarro em relação ao caso, é que o Dr. Leonard Hopkins, em um depoimento sobre o caso do doutor George, quando lhe foi feita uma pergunta sobre as crenças no satanismo moderno, - e a crença do condenado como reencarnação do próprio criador da bíblia satânica – o doutor Leonard Hopkins dissera ser um adepto do “movimento”, além do mais, disse crer nas palavras de seu cliente e que, como forma de respeito por parte do juiz, exigiu reconhecimento do satanismo moderno como religião.
 Na madrugada de doze de setembro de mil novecentos e quarenta e sete, o doutor George Pudwins suicidou-se em sua cela com um pedaço de corda feito a partir de trapos de seus lençóis de colchão. Como despedida, o doutor deixara uma carta, dizendo que suas missões naquele “plano físico” (palavras do próprio), tiveram sido concluídas. Para entender melhor, segue abaixo uma cópia da carta:
Tudo que precisei eu conquistei, embora um dos efeitos colaterais, e a resposta que menos procurei fosse, no caso a atenção da mídia, consegui alcançar meus objetivos. Peço a todos vocês, devotos do grande filho-da-luz, que O aguardem, pois eu, como mero serviçal, posso lhes garantir que, apesar dos esforços, e muitas das vezes nós temos falhado, somos uníssono. O dia do juízo final está chegando, e nós, os soldados Iluminados, vamos aos poucos entupindo de ódio e subversão o coração de todos, novatos e veteranos, com sentimentos controversos e visões subjetivas. Aos muitos que não me entendem, eu digo, está próximo;vão um dia, com certeza um dia, me entender. E aos que já me entendem, aguardem; nossos dias, como contados há anos por Abdul, há de chegar. Fui mais um que utilizou um hospedeiro, mas que tenho o poder suficiente, para contrapor até a força do dinheiro. É nessas horas, irmãos, que mais precisamos da ajuda de vocês. É com muito orgulho que deixo o plano físico, pois já concluídas minhas missões, e encontrado a porta mais rápida para a casa do onipotente supremo - o suicídio -, retorno ao meu plano original post-mortém, localizado no plano espiritual após o plano etéreo, e que vos digo, aguardem-nos, nossa revolução não será em vão.
Aguardem meus irmãos, em breve esta mensagem será compartilhada pela mídia, e suas pupilas dilataram diante a força da ira do máximo e perfeito anjo-de-luz! Aguardem-vos como vossa alteza nos aguarda!

 Hoje o caso se encontra arquivado em muitas das bibliotecas do país, e é analisado quase diariamente por estudantes de psicologia e teologia do país inteiro. Embora possa parecer uma história bem vaga, há muitas pessoas, até hoje, intrigadas com toda a trajetória. Com certeza, e inevitavelmente, esta fora uma das histórias de insanidade repentina com mais repercussão no mundo acadêmico da década de cinquenta/sessenta; e indiscutivelmente, a história com perguntas mais solenes nunca respondidas de nossa época.
 




The Psicological Magazine.: Art:
O estranho caso do Dr. George Pudiwns
 09/12/1967- por Alex Carter

 

por Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta

domingo, 17 de março de 2013

O garoto que brincou com fogo




 O garoto estava desesperado, não sabia mais o que fazer. Optou pelo meio mais complicado de resolver seu problema, o homicídio. Logo após o colégio, pesquisou na internet lâminas, armas e bombas caseiras, que pudessem satisfazer seu obscuro desejo e fabricadas em pouquíssimo tempo. Recebeu conselhos malignos em fóruns, indicações de produtos químicos em redes sociais, observações duvidosas sobre o motivo para o qual seriam usadas as bombas e por fim, optou pela Lamp Fire; uma bomba caseira feita dentro de uma lâmpada com produtos encontrados facilmente em sua cozinha, garagem ou sótão.
 Antes da chegada de seu padrasto, removeu a Lâmpada da sala e levou-a ao fogão por alguns segundos até derreter a cola do suporte. Após, removeu seu suporte metálico, encheu o vidro da lâmpada com querosene e álcool e colou novamente o bocal com supercola. Enquanto aguardava a secagem do suporte metálico da lâmpada-bomba, se preparou limpando as digitais da maçaneta, dos utensílios usados na cozinha e de qualquer objeto que tenha tocado. Ligou para um de seus amigos do curso de elétrica, avisou-o sobre o plano e forjaram o álibi; quando as autoridades o procurassem, diria que foi a casa de um amigo após o colégio, e obviamente seu amigo confirmaria.
 Agora que estava tudo pronto e os vizinhos não o tinham visto chegar, poderia colocar a lâmpada de volta no bocal e correr para a casa de seu colega de curso para aguardar que as autoridades o informasse do futuro incidente. Vestiu um par de luvas cirúrgicas, pegou uma escada e se certificou de subi-la descalço, ainda mais que seus sapatos haviam ficado do lado de fora da casa estrategicamente para que não fossem identificadas suas pegadas no carpete. Colocou a Lâmpada de volta no bocal do lustre que imediatamente explodiu em seus olhos. O garoto caiu ensanguentado no carpete com parte do corpo em chamas. Rolou de um lado para o outro tentando apagar o fogo e logo após desmaiou. Tivera sido um erro de cálculo gravíssimo, algo muito simples e fatal; o garoto tivera esquecido o interruptor da sala ligado.
 De uma forma bem irônica, o garoto conseguiu se livrar de seu padrasto alcoólatra agressor. Após internado em observação por três meses no Hospital Municipal de Mogi das Cruzes, foi transferido para uma clínica de reabilitação para dependentes químicos, que até hoje é paga pelo padrasto. O jovem, atualmente, perdeu todo o brilho nos olhos que tinha, o rosto jovial e curioso, e teve noventa por cento da face queimada e trinta do resto do corpo no pequeno incêndio. Perdeu amigos, seu conforto, sua sanidade, mas finalmente teve oque sempre quis, a sua liberdade.


por Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta

segunda-feira, 4 de março de 2013

De Volta Para o Futuro



Naquela manhã num bairro da zona sul de São Paulo, Henrique tivera mais uma discussão com seus tios; seus tutores legais desde o falecimento de sua mãe há seis anos. De cabeça quente, transtornado, e num impulso, juntou suas coisas e partiu para nunca mais. Estava farto das regras excessivas e a vibração antiquada que pairava em seu lar.
 As onze e cinquenta daquela turbulenta segunda-feira em Osasco, na casa de um de seus amigos de infância, o garoto fora sido bem recebido. Otávio, três anos mais velho que Henrique, já morava sozinho desde o início de sua matrícula na universidade; jovem de classe-média da zona sul de São Paulo, se mantinha com um auxílio financeiro de seus pais e com a venda de alguns entorpecentes entre colegas e conhecidos da faculdade. Juntos, os garotos fizeram planos, tramaram contra tudo e todos e planejaram o maior dos impérios em sessões de baseados e goles de Vodka. Não havia o porquê voltar, ou por quem. Henrique finalmente se sentia livre e dono de Sodoma.
 Quase todos os dias tinham a companhia de belas garotas, muito álcool e drogas em suas festas particulares onde a luxúria e avareza eram como uma mesa farta numa ceia na noite de natal. Não tinha limites, tinha o controle total sobre tudo e finalmente, era dono de sua vida. Mas não por muito tempo.
 Com o tempo Otávio parou de receber as regalias financeiras das mãos de seus tutores, o curso na universidade já estava concluído, e tivera que trabalhar em uma das microempresas do pai. Henrique, que já não tinha quase que constantemente oque comer, procurava emprego. Seu orgulho era maior que sua força de vontade, os empregos como estoquista e empacotador não lhe brilhavam aos olhos, e a vaga de RH em uma multinacional já fora sido preenchida por jovens cursando o ensino superior, o que para Henrique ainda estava muito longe desde que abandonou os estudos aos quinze anos.
 Agora mais que nunca, sentia o verdadeiro peso da responsabilidade, sentia suas costas doloridas a cada laje que subia. Fora pintor, ajudante de pedreiro, caixa em um supermercado, manobrista em um restaurante e estoquista numa loja de calçados num shopping da zona sul. Fora sua deixa, não conseguira ficar em nenhum de seus empregos, não sabia aceitar ordem de seus superiores. E finalmente, como um passe de mágica, Henrique jogou a toalha! No ultimo emprego na loja de sapatos, o jovem foi visto por Barbara, sua ex-namorada. A garota de seus sonhos, a sua musa inspiradora e sua fada que visitara-o todas as noites em pensamentos. Estava ajoelhado no chão, enfiando com muita dificuldade os calçados nos pés de uma cliente exorbitantemente gorda, da qual não conseguia se decidir em uma hora e meia se queria a sapatilha de camurça preta, ou o salto de couro vermelho; a linda jovem de cabelos castanhos encaracolados o mediu dos pés a cabeça, e com um olhar de desprezo soltou um bufão e se virou. Aquilo fora sido a gota d’água.
 Henrique pediu demissão, pegou um trem sentido a casa de seus tios, e foi-se antes mesmo de Otávio voltar pra casa. Em cada casa, em cada pixo que observava da janela do vagão, via seu passado, sentia enfim uma nostalgia boa de como todo aquele conforto era bom, de como eram necessárias as regras impostas em seu lar para que, finalmente, pudesse florescer como um adulto responsável. Não sabia oque dizer quando chegasse, mas sentia saudades de todos. Tio Laguna, Tia Cotinha, e sua avó Natália. Queria finalmente mudar sua vida de uma vez por todas e provar a si mesmo que poderia ser grande, dono do próprio nariz.
 Atualmente Henrique é ilustrador, roteirista e fundador de um projeto de inclusão literária para crianças de comunidades carentes de São Paulo. Pai de dois filhos, trinta e seis anos, é casado a seis e se lembra com carinho de todo o trajeto que fez para ancorar onde está. Mas não sente remorso algum de sua estadia de oito meses fora de casa, no passado, quando tinha dezesseis. Talvez, se não tivesse passado por aquelas e outras dificuldades não citadas, não teria sido um adulto tão forte e bem-sucedido.

por Allef Candido e Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta
04.03.2013