quarta-feira, 9 de outubro de 2013
A besta fera
Era a madrugada mais fria que pudera participar e manter-se vivo. Aliás, ainda se questionara como estava vivo num frio extremo na floresta, deitado na neve encostado em uma árvore e trajando apenas luvas, touca, uma blusa de lã sob uma jaqueta jeans, uma calça jeans e botas de passeio. Após uma de muitas brigas com sua esposa, saíra para caçar, mas havia bebido tanto gim que pegara no sono no fim da tarde. Agora, acordado no meio da madruga, sem senso de direção algum e com a visão obstruída por conta da nevasca que se aproximava, não podia ver as estrelas para seguir de volta para casa.
Eis que, sem ter o que fazer, decidira caminhar por conta, tentando se lembrar do caminho, que agora embaixo da neve constante, só estava visível a dois metros de sua visão. Não era fácil retornar no escuro extremo, a neve cobrindo seu tornozelo e algumas rajadas de vento lhe surpreendiam a cada curva cega na floresta, mas era necessário. Seu pés estavam formigando, quase não os sentia, e suas mãos, pareciam dois pesados blocos de gelo.
Mais ou menos trinta minutos de caminhada, o velho Willy de olhos cansados e barba ruiva protuberante viu um par de luzes verde. Prevendo que fosse alguém para lhe salvar - ou para morrer de frio contigo -, correu ensandecido uns dez metros adiante. Como se não bastasse o frio, quando avistou a criatura, congelara de medo. Seus olhos eram verde-esmeralda cintilante, pareciam dois vaga-lumes voando lentamente em sincronia. Seu corpo era revestido de pelos negros muito grossos, compridos, e seus dentes se projetavam de sua boca, que mais parecia um focinho.
A criatura que devia ter em média três metros de altura, estava curvada saboreando o que parecia ser um cadáver em decomposição. Willy,aterrorizado com a cena, recuperara totalmente os sentidos extirpados pelo efeito do álcool em excesso. Lentamente, com os sentidos apurados por conta da adrenalina, o velho barba ruiva dera um paço para trás, depois outro e depois outro, buscando o melhor momento para correr. Mas, quando estava quase fora do alcance de visão da besta fera, tropeçara em uma raiz encoberta pela neve, justo no instante que as copas das árvores pararam os silvos, a neve tinha cessado e a floresta estava mais tranquila. Fora sido como um estalar de dedos, mas que naquela madrugada totalmente escura e silenciosa - a não ser pelos sons abafados da mandíbula monstruosa que mastigava alguns ossos dois metros à frente -, soaram como um tiro de uma pistola.
O velho Willy já havia se considerado morto. Tentara levantar rapidamente mas sabia que seria em vão. Quando ficara em pé, com o fôlego de fumante veterano, não dera dois passos até ser derrubado novamente, mas desta vez pela fera. Quando a besta ensandecida estava sobre o seu peito, com as garras sobre os braços e a saliva misturada em sangue pingava-lhe da cara, Willy não mais sabia para qual deus rezar. A besta fera, rosnando e grunhindo olhara-o nos olhos, penetrando suas pupilas. Se aproximara a menos de dois centímetros da face do velho barba ruiva, farejara-o no pescoço e depois nos ombros. Se parecia mais com um cachorro com raiva seu rosnado, do que qualquer outra coisa. Willy não sabia mais o que fazer, então como se não bastasse as preces rápidas com a boca seca e os olhos espantados, dissera como uma ultima tentativa: "Por favor...", e então a besta fera respondera com um tom grave, mais humano que canino, algo como: "Ainda não".
A fera saiu correndo como um lobo floresta adentro e Willy, mais confuso que assustado ficara ali, parado, sem saber ao certo se tivera visto o que viu, se tivera ouvido o que ouviu. Logo, começou a amanhecer e o velho se preparava para o caminho de volta. Mas não teve coragem alguma de checar o cadáver que havia virado lanche. E ao longo de sua vida, quase todos o que conheciam, ouviam essa história até os últimos dias de sua vida.
por Cauê Paz / (Coletânea de Contos)Projeto Conjunta
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Nenhum comentário:
Postar um comentário